Como o Sono Ajuda o Cérebro a Aprender

Descubra como o sono participa da consolidação das memórias, prepara o cérebro para novas aprendizagens e por que descansar também pode fazer parte de aprender.

Geralda Regina

9/3/20269 min read

Aprender não acontece apenas enquanto estudamos, praticamos ou prestamos atenção a uma explicação.

Depois que uma experiência termina, o cérebro ainda precisa processar parte das informações recebidas. Algumas serão fortalecidas, outras modificadas e muitas poderão ser esquecidas.

O sono participa desse processo.

Quando adormecemos, o cérebro não simplesmente desliga. Ele passa por diferentes estágios, cada um caracterizado por padrões específicos de atividade. Ao longo da noite, esses estágios se alternam em ciclos e criam condições importantes para diferentes funções do organismo.

Entre elas estão a aprendizagem e a memória.

Isso não significa que podemos aprender conteúdos complexos enquanto dormimos nem que uma noite de sono registre automaticamente tudo o que estudamos.

O aprendizado começa com atenção, contato com a informação, compreensão e prática. Entretanto, o sono pode colaborar para que determinadas experiências sejam estabilizadas e integradas ao que já sabemos.

O aprendizado não acontece em uma única etapa

Quando encontramos uma informação nova, o cérebro precisa inicialmente registrá-la.

Esse primeiro momento é chamado de codificação.

A codificação acontece quando prestamos atenção a uma conversa, lemos um texto, conhecemos uma pessoa, aprendemos um caminho ou praticamos uma habilidade.

Porém, o registro inicial ainda pode ser frágil e sofrer interferências.

Depois da codificação, parte do que foi aprendido passa por um processo de estabilização e reorganização conhecido como consolidação da memória.

Por fim, quando tentamos lembrar, reconhecer ou utilizar aquela informação, ocorre a recuperação.

Podemos resumir essas etapas da seguinte forma:

Codificação: registro inicial da experiência.

Consolidação: estabilização e reorganização de parte do que foi registrado.

Recuperação: acesso posterior à informação ou habilidade.

Esses processos estão relacionados, mas não são iguais. O sono pode contribuir especialmente para a consolidação e também para a capacidade de registrar novas informações no dia seguinte.

O cérebro permanece ativo durante o sono

O sono é uma condição biológica ativa e organizada.

Durante uma noite, passamos por períodos de sono não REM e sono REM. Dentro do sono não REM existem diferentes estágios, que avançam do sono mais leve para o sono profundo.

No sono profundo, também chamado de sono de ondas lentas, surgem padrões cerebrais de baixa frequência e maior amplitude.

Em outros momentos do sono não REM aparecem breves atividades conhecidas como fusos do sono. Pesquisadores estudam como esses fusos, as ondas lentas e determinadas atividades do hipocampo podem atuar de forma coordenada durante o processamento das memórias.

O sono REM, por sua vez, apresenta características diferentes, incluindo elevada atividade cerebral e os conhecidos movimentos rápidos dos olhos.

Embora determinados processos possam estar mais associados a alguns estágios, é importante evitar explicações rígidas.

Não existe apenas um estágio responsável por toda a aprendizagem ou por todos os tipos de memória. A arquitetura completa do sono e a interação entre seus diferentes períodos parecem ser relevantes.

O que acontece com as memórias enquanto dormimos?

Durante o dia, o cérebro recebe uma quantidade muito maior de informações do que conseguiremos lembrar.

A memória não funciona como uma câmera que registra cada detalhe com precisão. Ela é seletiva, dinâmica e reconstruída cada vez que uma experiência é recordada.

Durante o sono, determinadas experiências recentes podem ser reativadas por circuitos cerebrais.

Essa reativação não significa que revivemos conscientemente tudo o que aconteceu. Trata-se de uma atividade neural associada a representações formadas durante a experiência.

A reativação pode colaborar para que algumas memórias sejam estabilizadas e relacionadas a conhecimentos anteriores.

Imagine uma antiga biblioteca.

Ao longo do dia, muitos livros novos chegam. Enquanto as portas estão abertas, outros volumes continuam sendo recebidos e não existe tempo suficiente para organizar tudo.

Quando a biblioteca fecha, o movimento visível diminui. Entretanto, o trabalho interno continua.

Alguns livros são examinados novamente. Outros são aproximados de assuntos relacionados. Certos volumes encontram lugar no acervo, enquanto outros permanecem frágeis e precisarão ser revisitados.

O sono pode ser compreendido, simbolicamente, como parte desse período de organização.

O diálogo entre o hipocampo e o córtex

O hipocampo é uma estrutura cerebral importante para a formação e a recuperação inicial de muitas memórias relacionadas a fatos e acontecimentos.

Podemos imaginá-lo como um espaço temporário da biblioteca, no qual determinadas experiências recentes permanecem disponíveis para processamento.

Durante o sono, especialmente em alguns períodos do sono não REM, ocorre uma comunicação coordenada entre o hipocampo e diferentes regiões do córtex cerebral.

Pesquisas sugerem que essa comunicação participa da consolidação de determinadas memórias.

Isso não significa que uma lembrança seja transferida de forma literal, como um arquivo movido entre duas pastas.

O cérebro não funciona exatamente como um computador.

A consolidação envolve mudanças na maneira como diferentes redes cerebrais participam da representação e da recuperação de uma experiência.

Com o tempo, algumas memórias podem tornar-se menos dependentes dos mesmos circuitos envolvidos em seu registro inicial e mais integradas a redes amplas de conhecimento.

Dormir depois de aprender pode favorecer a memória

Diversos estudos investigam o que acontece quando um período de sono ocorre depois da aprendizagem.

Em determinadas tarefas, dormir após estudar ou praticar está associado a melhor retenção posterior quando comparado a permanecer acordado durante um intervalo semelhante.

Os resultados, porém, não são idênticos para todas as memórias.

Recordar fatos, aprender uma sequência motora, processar uma experiência emocional e reconhecer padrões são atividades diferentes. Cada uma pode envolver circuitos e condições específicas.

Por isso, não devemos transformar o sono em uma promessa automática de memorização.

Dormir não garante que tudo será lembrado.

Atenção, compreensão, significado, repetição espaçada, recuperação da informação e prática continuam sendo fundamentais.

O sono trabalha com aquilo que o cérebro conseguiu registrar. Se não houve atenção ou contato suficiente com o conteúdo, não existe uma memória completa esperando para ser organizada.

O sono também prepara o cérebro para aprender

O sono não influencia apenas aquilo que aconteceu no dia anterior.

Ele também pode interferir na maneira como o cérebro recebe novas informações.

Quando dormimos pouco, pode ficar mais difícil sustentar a atenção, compreender explicações, tomar decisões e identificar erros.

A pessoa pode ler várias vezes o mesmo parágrafo sem perceber o significado. Pode acompanhar uma conversa e perder detalhes importantes. Pode praticar uma atividade, mas apresentar mais dificuldade para corrigir os próprios movimentos.

Essas dificuldades não representam necessariamente falta de inteligência, interesse ou dedicação.

Em muitos casos, o cérebro está tentando aprender sem ter recebido o descanso de que precisava.

Estudos experimentais e revisões meta-analíticas indicam que a privação de sono antes da aprendizagem pode prejudicar a codificação de novas informações.

A privação depois da aprendizagem também pode interferir na consolidação de parte do que foi registrado.

O sono, portanto, aparece dos dois lados do processo: ajuda a preparar o cérebro para novas experiências e participa do processamento de experiências anteriores.

Estudar durante toda a noite funciona?

Diante de uma prova, apresentação ou tarefa importante, muitas pessoas sacrificam o sono para continuar estudando.

Essa escolha parece oferecer uma vantagem imediata: mais horas diante do conteúdo.

Entretanto, horas de exposição não são necessariamente horas de aprendizagem.

Quando o cansaço aumenta, a atenção pode oscilar, a compreensão tornar-se mais superficial e a capacidade de perceber erros diminuir.

Ao mesmo tempo, reduzir o sono depois do estudo diminui o período disponível para determinados processos de consolidação.

Isso não significa que uma única noite ruim apagará tudo o que foi aprendido.

Também não significa que pessoas com dificuldades para dormir sejam incapazes de aprender.

O cérebro possui capacidade de adaptação, e o desempenho depende de muitos fatores.

A mensagem não deve produzir culpa ou ansiedade. Ela apenas nos convida a reconhecer que permanecer acordado por mais tempo nem sempre representa a estratégia mais eficiente.

O sono não substitui a prática

Dormir com um livro debaixo do travesseiro não transmite conhecimento.

Ouvir aulas durante o sono não substitui a atenção consciente necessária para compreender conteúdos complexos.

Existem pesquisas sobre a reativação direcionada da memória, nas quais estímulos previamente associados ao aprendizado são reapresentados durante o sono. Contudo, esses estudos ocorrem em condições específicas e não demonstram que alguém possa aprender um assunto completamente novo enquanto dorme.

Primeiro, é preciso estar acordado e presente.

Prestar atenção.

Experimentar.

Cometer erros.

Corrigir.

Praticar.

O sono pode participar do processamento posterior daquilo que foi registrado, mas não substitui essas etapas.

Pausas também fazem parte da aprendizagem

Nossa cultura frequentemente associa produtividade à atividade constante.

Parar pode parecer perda de tempo. Dormir pode ser interpretado como interrupção de algo mais importante.

Entretanto, o cérebro não aprende apenas durante os momentos de esforço visível.

Períodos de descanso acordado e de sono podem colaborar para o processamento das experiências recentes.

Isso ajuda a explicar por que distribuir a prática ao longo do tempo costuma ser mais adequado do que concentrar todo o esforço em uma única sessão exaustiva.

Uma sequência possível é:

  1. entrar em contato com o conteúdo;

  2. tentar recuperá-lo sem olhar imediatamente a resposta;

  3. identificar dúvidas e erros;

  4. corrigir o que for necessário;

  5. fazer uma pausa;

  6. dormir;

  7. retornar ao conteúdo em outro momento.

Quando retornamos, oferecemos ao cérebro uma nova oportunidade para fortalecer o aprendizado e identificar as partes que ainda precisam de atenção.

Quantas horas de sono são necessárias?

Não existe uma quantidade única que funcione igualmente para todas as pessoas.

As necessidades de sono mudam ao longo da vida e também podem variar entre indivíduos.

Além da duração, importam a regularidade, a continuidade e a qualidade do descanso.

Permanecer muitas horas na cama não garante um sono reparador. Despertares frequentes, alterações respiratórias, dor, ansiedade, fatores ambientais e diferentes condições de saúde podem comprometer o descanso.

Algumas medidas gerais podem favorecer um sono mais organizado:

  • manter horários relativamente consistentes;

  • receber luz natural durante o dia;

  • criar uma transição gradual entre atividade e descanso;

  • reduzir estímulos intensos próximo ao horário de dormir;

  • manter o ambiente confortável, silencioso e escuro;

  • evitar transformar o sono em uma tarefa que precisa ser executada com perfeição.

Quando a dificuldade para dormir é frequente, persistente ou provoca sonolência intensa e prejuízos durante o dia, uma avaliação profissional pode ser necessária.

Uma prática simples para experimentar

Antes de encerrar o dia, escolha uma informação que considere importante.

Faça uma revisão breve.

Depois, feche o material e tente recordar os pontos principais sem consultar imediatamente.

Observe o que consegue recuperar e identifique aquilo que permanece confuso.

Em seguida, permita que o dia termine.

Na manhã seguinte, retorne ao conteúdo.

Perceba o que permaneceu, o que parece mais claro e o que ainda precisa ser praticado.

Essa experiência não é um teste sobre a qualidade do seu sono. É apenas uma maneira de combinar estudo, recuperação da informação, pausa e retorno.

Aprenda.

Faça uma pausa.

Durma.

Retorne.

Conclusão

O sono não é um período em que o cérebro simplesmente interrompe suas atividades.

Enquanto dormimos, diferentes padrões de atividade cerebral criam condições que podem favorecer a estabilização, a reorganização e a integração de determinadas memórias.

Ao mesmo tempo, o descanso ajuda a preparar o cérebro para prestar atenção e registrar novas informações no dia seguinte.

Isso não significa que dormir substitua estudar ou que todas as experiências sejam automaticamente transformadas em memórias duradouras.

Aprender continua exigindo atenção, compreensão, prática, correção e retorno ao conteúdo.

Mas o descanso também merece um lugar nesse processo.

O aprendizado não termina necessariamente quando fechamos o livro.

Em alguns momentos, fechar o livro e permitir que a noite comece pode ser uma parte importante da jornada.

Continue essa reflexão

Assista ao episódio completo Como o Sono Ajuda o Cérebro a Aprender, da Temporada 2 do Projeto Horizonte, no canal Mente Curadora.

Continue explorando os conteúdos do Blog Mente Curadora sobre aprendizagem, neuroplasticidade, hábitos e transformação consciente.

Conheça também a Coleção Mente Curadora:

Ciclo das Crenças
mentecuradora.com.br/ciclodascrencas

Código da Cura
mentecuradora.com.br/codigodacura

Clique nos links e conheça a Coleção Mente Curadora.

Referências

RASCH, B.; BORN, J. About sleep’s role in memory. Physiological Reviews, v. 93, n. 2, p. 681–766, 2013.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23589831/

DIEKELMANN, S.; BORN, J. The memory function of sleep. Nature Reviews Neuroscience, v. 11, p. 114–126, 2010.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20046194/

DIEKELMANN, S.; BÜCHEL, C.; BORN, J.; RASCH, B. Labile or stable: opposing consequences for memory when reactivated during waking and sleep. Nature Neuroscience, v. 14, p. 381–386, 2011.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21258327/

NEWBURY, C. R. et al. Sleep deprivation and memory: meta-analytic reviews of studies on sleep deprivation before and after learning. Psychological Bulletin, v. 147, n. 11, p. 1215–1240, 2021.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8893218/

KLINZING, J. G.; NIETHARD, N.; BORN, J. Mechanisms of systems memory consolidation during sleep. Nature Neuroscience, v. 22, p. 1598–1610, 2019.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31451802/

NATIONAL INSTITUTE OF NEUROLOGICAL DISORDERS AND STROKE. Brain Basics: Understanding Sleep.
https://www.ninds.nih.gov/health-information/public-education/brain-basics/brain-basics-understanding-sleep

Conteúdo educativo e informativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais qualificados.